Perda de valor e a falta de ação

 Na maioria dos livros de Contabilidade e Economia, trabalhamos com um conceito interessante que raramente é tratado com a importância que necessita.
Em livros como o de teoria de Sérgio de Iudicibus, ou Contabilidade Geral, de Ed Luiz Ferrari, temos um conceito interessante mas pouco elaborado.
"Depreciação é a despesa com a perda de valor de bens tangíveis do ativo imobilizado, sujeitos ao desgaste pelo uso, ação da natureza ou por se tornarem obsoletos." - Contabilidade Geral, Ed Luiz.
A Lei 6404 de 1976 e suas revisões fala sobre o assunto.
Art. 183 - § 2o  A diminuição do valor dos elementos dos ativos imobilizado e intangível será registrada periodicamente nas contas de:
a) depreciação, quando corresponder à perda do valor dos direitos que têm por objeto bens físicos sujeitos a desgaste ou perda de utilidade por uso, ação da natureza ou obsolescência;
b) amortização, quando corresponder à perda do valor do capital aplicado na aquisição de direitos da propriedade industrial ou comercial e quaisquer outros com existência ou exercício de duração limitada, ou cujo objeto sejam bens de utilização por prazo legal ou contratualmente limitado;
c) exaustão, quando corresponder à perda do valor, decorrente da sua exploração, de direitos cujo objeto sejam recursos minerais ou florestais, ou bens aplicados nessa exploração.
(https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6404consol.htm)
O problema com isso é que nada faz entender a natureza dessas forças no que se refere ao valor, e à economia.
Depreciação, Amortização e Exaustão são tratadas como parte de uma condução de atividade econômica, comercial ou não, que figura apenas como uma "base teórica de administração", ao invés de interpretação contábil e econômica de um fenômeno da natureza.
Tudo que existe, e tem um valor, em termos de uso, em termos de troca ou em termos de posse, perde esse valor em relação à todo o resto que relativamente ganha valor. Imagine que ao invés de uma simples curva que dita o valor como a base desse entendimento, tenhamos duas curvas que descrevem a perda de valor e o ganho de valor em diversos aspectos. Linhas para ganhos e perdas de valor em troca, posse ou uso.
A perda de valor então passa a ser um resultado integralizado pelos dados dessas perdas e ganhos de valores. Um carro por exemplo sempre perde valor com o tempo, em certos termos, mas pode ganhar em outros termos. Quando um carro torna-se obsoleto e defeituoso, ele definitivamente perde valor, mas também pode ganhar valor pela percepção de valor cosmético ou social, e então a variação marginal de valor do veículo pode ser positiva, mas isso não acaba com o dado de perda de valor em outras áreas. 
A importância disso pode ser vista no exemplo, já que um "clássico" carro com valor alto por sua raridade e percepção pode instantaneamente perder esse valor frente ao tipo de perda de valor por obsolescência e valor em uso que poderiam estar sendo perdidos ao mesmo tempo que o valor percebido de "clássico" tenha aumentado.
Um carro valorizado por ser o "único exemplar" de um tipo perde parte desse valor quando existe "outro". Um carro valorizado por ser clássico pode perder valor por deixar essa consideração. Ele não vai perder esse valor lentamente, como parte de um curso natural de perda por obsolescência, mas de uma vez ele vai assumir o valor de sua idade e estado. Isso porque ele não deixou de perder valor por envelhecer ou deteriorar, só permaneceu valorizado pela posse muito mais, o que resulta em aumento de valor.
Tudo em termos de valor funciona do mesmo jeito, mas estamos numa época em que poucas pessoas entendem a real implicação disso.
Como Thomas Sowell disse em uma entrevista no "Uncommon Knowledge", como as coisas perdem valor e as civilizações empobrecem não é um mistério, é a ordem natural das coisas, o que é realmente importante e digno de estudo é a o motivo que as que não empobrecem e não declinam conseguem essa proeza.
Isso que falta entender sobre o assunto. A natureza das coisas em perder valor é muito mais natural e simples do que a natureza do ganho de valor.
Nada dos dados conhecidos sugere que deixado ao fluxo natural das coisas, o destino de coisas, pessoas e sociedades é agregar valor e tornar sua cultura mais plena e eficaz. O estado natural das coisas é a decadência e a desvalorização.
É partindo desse princípio que temos que aprender a cuidar das coisas que valorizamos com a ideia de que é esse cuidado e essa atitude que mantém ou aumenta o valor das coisas, das sociedades, dos mercados, e não a simples manutenção das coisas como estão.
E o mais importante é saber que "fazer tudo de novo" sempre carrega uma força negativa em termos de geração de valor. Sem dúvida é importante fazer certo da primeira vez, mas mais importante é estar preparado para consertar o que se fez, e para aumentar a qualidade daquilo que se adquire experiência fazendo.
Conservadorismo, and de ser sequestrado por ideologias políticas, era a ideia de saber que é mais eficiente e eficaz ajustar o que está feito do que destruir o que se tem e fazer de novo. Uma coisa que não tem nada a ver com esquerda, direita, comunismo ou capitalismo, mas sim com a lógica filosófica da qualidade total.

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