Ping pong partidário

Aquele velho ditado que a grama do vizinho é sempre mais verde, esse não é mais verdade em setor algum do que na política.
Quando o ideal de democracias liberais invade um país, a espiral descendente de radicalização é sempre um fantasma, porque a ilusão de que existe sempre uma opção melhor sem os problemas parece ser um fundamento dessa doutrina.
"De alguma forma", "investindo o suficiente", e todas as desculpas da ideologia de que "tudo é possível" impregnam o que de outra forma seria apenas uma combinação de simples ideais liberais e democráticos.
Quando isso acontece, começa a perder-se a noção de que tudo tem um custo, e tudo tem um custo de oportunidade. Toda solução vem com seus próprios problemas, e não existe uma solução para a escassez. O bem escasso por excelência é o tempo, e o tempo é a fonte de todas as outras. Como define Thomas Sowell, economia é o estudo de recursos escassos que tem múltiplos usos. Sempre existirão recursos que não são suficientes para todos os seus usos, pelo simples fato de que não há como utilizar todos os recursos para todas as suas utilidades todo o tempo.
Quantas escolhas, e mais radicais escolhas, fazemos, é quanto mais custos de oportunidade nos imporemos. Se o seu plano é uma medida radical e inovadora para mudar completamente a forma como se faz uma determinada coisa, ou como se usa um determinado recurso, tão impactante ela será nas escolhas feitas para que seja implementada. Quanto mais mudanças, mais fontes de variação.
Particularmente o povo brasileiro é adepto de apostar custos de oportunidade em esperanças de mudança. Os preços mudam, a perda de valor é inevitável, mas em geral o povo sempre vota pela mudança mais do que na melhora. Apesar de a probabilidade de mudança de método resolver problems ser sempre menor do que a probabilidade de achar uma solução para os métodos atuais, na maioria dos casos, o povo segue sempre procurando o próximo salvador da pátria.
Tal é o perigo da democracia, e tal é a necessidade da república. O ideal republicano é o que traz a coisa pública, o direito que não é alvo da "maioria de votos". Coisas como o direito à vida, e à dignidade, garantidos pela coisa pública através da Constituição da República, que apesar de resultar hoje de uma elaboração por representantes democraticamente eleitos, ela resulta de uma imposição pétrea no direito do ser humano e do cidadão brasileiro.
Mas pela natureza da volatilidade emocional humana, as cláusulas pétreas de nossa constituição são insuficientes para garantir que a República seja destruída por um conjunto de interesses que consiga convencer uma maioria que certa atitude claramente almejada à interesses privados mude a vida de todos os cidadãos.
Essa eventualidade é o que assola os USA no presente, e é o que estivemos muito próximos de sofrer na gestão anterior, e estamos próximos de sofrer na gestão próxima.
O governo do PT está longe de ser um governo ideal, ou simplesmente eficaz e eficiente, pautado em estrutura e política de Estado sem intervenção ideológica. Mas a solução para uma ideologia que influi em políticas de Estado não é uma outra ideologia que influi em políticas de Estado.
O povo tem que entender em algum momento que existem escolhas que estão implicadas em outras escolhas, e que por mais indesejáveis que sejam, elas são o custo de oportunidade das escolhas que realmente importam. O gestor público que escolhe mudar um aspecto seguindo ideologias potencialmente implicará aspectos que seguem outra ideologia, mas também diversas políticas de Estado que devem ser feitas não porque privilegiam esse ou aquele interesse, mas porque são necessárias a manutenção do Estado, das próprias escolhas feitas, e da integridade da República.
Isso posto, é interessante que tais circunstâncias não são celebradas na constrituição como condição obrigatória da gestão dos poderes. A obrigação compulsória que uma administração tem de seguir os ditames cientificamente demostrados, assim como ela tem de ter probidade e idoneidade.
O povo mesmo não foge dessa responsabilidade, se eximindo da culpa de atender a impulsos egoístas na escolha de seu voto, e depois se sentindo traído quando a clara e lógica consequência dessas escolhas apresenta-se desfavorável aos mesmos interesses individuais e ao interesse público.
O voto ignorante, mesmo que válido, não é o exercício da democracia.