As pessoas discutem utilizando uma linguagem muito interessante sobre as implicações do risco sistêmico de operações como a do BRB. Essa é uma nova versão de um conto muito antigo, onde afirmam os interesses que dependem do tal sistema que um banco, ou um operador financeiro, pode ser muito grande para quebrar.
Essa afirmação não encontra respaldo técnico realmente. Ela tem que ser apoiada em certos aspectos menos ligados à integridade da economia e mais ligados à manutenção de um "status quo" que privilegia outros agentes financeiros. Em uma visão diferente da comumente veiculada por redes de TV e pessoas ligadas aos interesses financeiros que disso dependem, o agente financeiro é descartável.
Em primeiro lugar podemos analisar uma visão interessante da contabilidade. A diferença entre a contabilidade pública e a contabilidade privada no sentido de informação relevante aos seus objetivos.
A Contabilidade de uma empresa privada fala de lucros, fala de especificidade na eficácia de tornar ativos em patrimônio, sob a menor alavancagem possível. A Contabilidade Pública fala de Lucros e prejuízos também, mas ela conta com a informação de Variações Patrimoniais. Tecnicamente, uma empresa pública pode ter lucro ou prejuízo e ainda assim ser eficaz na execução das políticas públicas de que é instrumento.
Se envolvemos uma entidade pública no sistema financeiro, ela deve estar inserida em um contexto onde sua característica de entidade pública não se coloca em cheque pela participação prática na iniciativa privada. Uma vez que isso é feito, o erro está já em um risco sistêmico por esse fato sozinho, mesmo que o resultado final seja positivo em termos de finanças e gestão. O fato de que temos exposição ao risco inerente à operação nos moldes privados de uma empresa pública já é em si um sinal de que está sendo feito algo errado.
Teoria dita, o problema existe, e matura, criando um problema para a administração pública. É este problema realmente um problema que justifica a desfiguração do caráter público na "salvação" de uma instituição que, apesar de servir ao interesse público, teve sua função desviada?
A resposta é a mesma daquela sobre instituições financeiras privadas que se beneficiam de assumir riscos para captar apostas de vários níveis de risco, e uma vez que o risco se mostra alto, ou a gestão se mostra ineficaz, é assumido que para o bem daqueles que apostaram, o interesse público deve salvar o interesse privado.
Estamos aqui em um dos meus exemplos favoritos de como ideologia está tão arraigada em todos os lados da política eletiva do Brasil, que um absurdo é tido como verdade, seguindo um modelo proposto para uma forma de neocolonialismo que beira a insanidade.
Elizabeth Cobbs, uma historiadora de Stanford, uma vez disse que os USA não são um Império, mas um simples árbitro (no inglês, a palavra Umpire em contraste com Empire). Ao contrário dos Impérios anteriores, que aplicavam governança e políticas de Estado onde quer que tivesse interesses coloniais, os USA nunca tiveram a vontade, e de certa forma, sob certos aspectos, a capacidade, de gerir colônias da mesma forma, assumindo um papel mais regulador sobre outras economias, como forma de extrair vantagens sem incorrer em responsabilidades. Dessa prática deriva a ilusão de que comparado com outros Impérios, o sistema Neoliberal é superior, e o capitalismo nele inserido mais eficiente em lidar com administração.
Isso é, claro, completamente falso. O Império Britânico por exemplo levou muito tempo para entender que a fonte de muitos dos seus problemas era a "Companhia da Índia do Leste" (East India Company) quando ela tornou-se tão grande quanto um Estado, mas inepta em políticas de Estado.
Qual a razão de trazer isso tudo agora?
Adotamos um modelo de argumentação que é insidioso, e considera que práticas completamente absurdas estão corretas porque elas eram baseadas em práticas obscuras que não trazemos para a discussão. O modelo "American Dream" não é uma virtude do capitalismo, e suas mazelas não são uma sina deste sistema. A verdade sobre o Amercian Dream é que ele só é possível quando os USA, através de práticas atualmente bem conhecidas (vide "Confissões de um Assassino Econômico), trazia para a sua economia o fruto de um tipo de colonialismo que garantia os lucros sem incorrer nas perdas, ou seja, ele não se importava com o resultado público de suas práticas, muitas vezes afirmando que a austeridade e punições sobre outras economias eram, na verdade, o fundo de sua eficiência.
Uma geração, ou mesmo duas, de estudantes e pesquisadores foi influenciada por essa ilusão de que a severa disparidade entre o particular e o público era motivado não porque sejam naturezas diferentes, mas porque uma é mais eficiente que a outra.
Hoje, muito tempo depois do desastre de todos esses modelos, ainda existem as pessoas que ignoram seus estudos, e simplesmente acreditam que teorias criadas sob uma ilusão de eficiência ainda sustentam a verdade, e que podemos conferir à instituições financeiras o poder de decisão sobre como empregar o capital público de forma mais eficiente, para a integridade do sistema econômico, ou trocando em miúdos, reunimos em uma sala donos de bancos que tem interesses uns nos outros e perguntamos sua opinião sobre se é importante premiar sua incapacidade e assunção de riscos com dinheiro público.
Esse modelo deriva exatamente do fato de que para o modelo que foi impresso pelo "ideal" do American Dream, as instituições financeiras são pilares de um sistema que engloba os interesses de todos, e não somente a conveniência de muitos e os interesses de poucos.
É fato que algumas empresas dependem do sistema bancário privado, ou autárquico, para existir, e que dele partem os meios de pagamento para os trabalhadores. Porém, os riscos e contravenções em que incorrem são resultado direto do fato de que estamos constantemente consultando apenas um lado dos interessados sobre o que fazer com a fé pública.
O trabalhador recebe seu salário, e com ele paga o seu sustento. O movimento de renda disponível da maioria do povo é usado em conveniência e pequenos supérfluos que dificilmente irão terminar em grandes operações financeiras.
O principal problema, que algumas nações decidiram resolver com inteligência, e não com fórmulas enviadas por "senhores coloniais", é que premiamos o risco que bancos e instituições incorrem com garantias de que se eles falharem e suficientes "escudos humanos" foram alistados, eles não tem o que temer.
Isso é o que irá culminar em práticas como a que trouxe o BRB ao ponto que está, e a discussão sobre o uso de recursos públicos como uma parte "compulsória" de operar um sistema financeiro, ao invés da falha sistêmica de governança que permite que ela exista.
Se não fosse permitido que bancos praticassem certos tipos de gerenciamento de risco, e se o governo realmente cuidasse daquilo em que emprega o dinheiro público, um banco não seria capaz de tornar-se tão influente, não importa o quão grande ele for, que não possa simplesmente afundar e dissolver-se no sistema financeiro sem qualquer problema com o bem público.
Isso é, inclusive, a razão que muitos brasileiros que ofertados um meio de comunicação, falam sobre Rússia, China, entre outros, as besteiras que falam.
A "falta de liberdade" em fazer o que parece ser finança sofisticada é na verdade uma prática nefasta que, ainda que gere lucros para indivíduos, é perniciosa até mesmo para seus próprios proponentes, e deveria ser investigada como uma quebra de política de Estado, ao invés de uma "ideologia diferente de governo".
Mesmo os ditos Marxistas da modernidade, eles ainda incorrem nos mesmos erros que Marx é reconhecido por identificar e criticar. Hoje temos a incrível eventualidade onde alguém consegue explicar com aplausos de uma casta "intelectual" como o objetivo do comunismo é o "bem estar individual".
O que não é surpreendente em um país onde um professor de história não é considerado um completo néscio por dizer que "Nacional Socialismo" não é Socialismo.