Soberania, mas só nas plaquinhas

 Muito se fala sobre esquerda e direita no Brasil, e mesmo que uma pessoa ignore toda a teoria política e aceite a existência de "artifícios retóricos" como esquerda e direita, ainda estamos longe de colocar qualquer deles em prática.

É real que o Brasil funciona desde há muito tempo na base do centrão, seguindo esse artifício, mas a ignorância das variações de orientação política é o que realmente detona todos os argumentos.

As discussões que herdamos do mesmo tipo de massificação, vinda dos USA, fala em dualidade porque eles tem dois partidos, chamados de Conservador, Republicano, e liberal, Democrata, mas é a mesma ilusão. Eles conservam em si, ambos, coisas consideradas por eles Conservadores e Liberais, e defendem ideais tanto republicanos quanto democratas.

Mas como tudo isso funciona? A maneira mais simples é citar Orwell em seu "novo falar", New Speak, onde controle é liberdade, onde guerra é paz. O Brasil está seguindo os USA nessa retórica esdrúxula, e nossos partidos seguindo essa retórica em cima do povo.

O que seria um partido comunista? O partido comunista Brasileiro? O Partido dos Trabalhadores? O Partido Comunista do Brasil?

Marx não foi o único proponente do Comunismo, foi criticado por outros proponentes, e ainda é até hoje. Além disso, ele foi criticado por ser "ocidental demais" em suas ideias, esquecendo que o mundo não é todo ocidente. Para quem estuda Marx, assim como outros, sabe que ele tinha boas críticas ao capitalismo, mas suas teses perdiam força quando ele sugeria soluções ou entretinha ideias de amenizar os problemas naturais da economia. Ele, como Hayek ou Keynes, tinham uma perspectiva parcial do que poderia ser uma consciência de mundo. Todos eles sofriam de "febre local", ou a ideia de que todo o mundo quer e faz o que o Ocidente Anglo-Europeu quer e faz.

Mas no Brasil existe uma maestria que une dois problemas interessantes que combinam-se em uma mistura única brasileira: O 'jeitinho brasileiro' e a 'síndrome do salvador da pátria'.

Como a maioria dos Sul-Americanos, os Brasileiros tem no fundo de sua mente a ideia de que uma pessoa, ou um pequeno grupo de pessoas, conseguiria mudar um sistema que funciona de uma forma por inúmeras questões naturais, de Estado, de governo e de economia, além de políticas de escolha pública. É comum, como no presente, um governo dizer que 'ele fez' coisas que obviamente ele não fez. Mesmo aqueles que admitem uma verdade óbvia ainda sofrem com a insistência do povo nessa mentalidade.

FHC uma vez disse que sem o plano Collor, seria impossível existir o Real. O que Collor fez, era, como é básico do economista saber, a teoria de Keynes aplicada na letra. Mas ele cometeu um erro básico de política no Brasil: Ele não vestiu a medida com 'sofrimento brasileiro'. Ele não chamou as pessoas a serem 'Fiscais do Presidente', como o Sarney, ele não tinha uma vassourinha, ele não clamou as forças ocultas, nem mesmo disse que entregava com pesar o poder aos que não queriam o bem do Brasil. Ao invés disso, ele simplesmente fez. Técnico, literal, teoria econômica crua. E o resultado sabemos.

Fernando Henrique fez basicamente uma nova investida do plano Collor retomando exatamente a mesma coisa que Collor fez, mas o invés de fazer a remoção temporária de liquidez da economia com ajustes fiscais, ele vestiu a URV de uma mítica capa que apelava para o senso de salvador da pátria. Ele fez exatamente a mesma coisa, removendo liquidez da economia com ajustes fiscais, e até mesmo um congelamento light de preços, mas como ele vestiu seus esforços com o 'mito' que nem mesmo é invenção Brasileira, mas uma paródia de um venezuelano, vejam só, que encarna o símbolo da síndrome de salvador da pátria: Simón Bolivar.

O Brasil tem a sorte, ou o asar, de estar inserido em uma história única dentre os países da América do Sul, sentado na colonização portuguesa, que era imperialista de uma forma diferente da Espanhola. Ruim tanto quanto, mas diferente. Tivemos uma sorte similar à dos USA. Eles tornaram-se o que são por estarem inseridos em uma disputa entre ingleses e franceses, onde a história privilegiou os USA como colônia disputada, e eles souberam aproveitar.

O Brasil, beneficiado pela situação de Portugal, cuja coroa entretinha o plano de mudar-se para o Brasil e recomeçar seu império de uma nova 'base'. Dom Pedro II soube aproveitar a preparação e ao invés tornou os esforços da coroa de Portugal a base onde iria erguer seu próprio império. Na época ele soube aproveitar, mas seus sucessores, nem tanto.

Essa nossa história, apoiada do fato de que um dia tivemos populações extremamente pragmáticas economicamente durante as primeiras eras de independência, é tudo separa o Brasil em seu relativo sucesso dos outros países da América do Sul, que amargaram a 'síndrome de salvador da pátria' sem ter nenhum salvador da pátria exatamente.

Como a figura de Che Guevara montou nessa síndrome e criou um mito em si mesma, as vezes nem mesmo a vontade do próprio Ernesto Guevara, isso merecia um post em si só.

Eu estudo história da Economia, porque sou economista, mas sempre estamos lidando com 'toda a história' circulando em volta da história 'da' economia, e da história 'de' economias. E grande parte dos rumos que são tomados em guerras, acordos e política são esforços para enfrentar aquilo que a economia demonstra estar no caminho.

É notório que as populações pré-colombianas da América, principalmente da América do Sul, eram comunistas em sua natureza. A troca era praticada em geral como política, e não como um comércio. Os impérios, que existiam, seguiam sendo comunistas em natureza, assimilando os derrotados em sua população.

Diferente das histórias Eurocentricas que fazem o que sempre fizeram, e atribuem seus desejos e medos à todo mundo na história, essas sociedades funcionavam como as das abelhas, ou a dos lobos. O chefe não é o mais "forte", mas o mais apoiado. E assim que o time do 'poder' perde o apoio, ele é sumariamente substituído por outro que tem o apoio. É uma coisa tão primitiva que é exatamente como chimpanzés e gorilas organizam sua sociedade.

Os Europeus tinham o mito do guerreiro rei, que incorporaram ao divino mandato do Oriente para criar o mito de que os reis de seus povos eram fortes e quase deuses, ironicamente para quem criticava os 'Reis-Deuses' da África.

A história mesmo vai contar que os reis da Europa eram todos glutões, tão decadentes que em sua grande maioria morreram depois de décadas apodrecendo vivos em seus aposentos, alguns tão longe em putrefação que as cortes Chineses os descreviam como corpos andantes, e citavam que alguns de seus delegados adquiriam doenças e o que nós chamaríamos de estresse pós-traumático, ao ver tais figuras.

Mas a cultura sul americana influenciou os Europeus que aqui viveram e que eventualmente tornaram-se as populações da América, especialmente da América do Sul, em tornar a sua política de suporte popular no mito do Salvador da Pátria.

Os USA e Canadá, ao invés, herdaram a ideia Europeia de que o 'sistema' é que salva a nação, através de valores e princípios. Aquela balela de 'by the people and for the people', ou as instituições criadas pelas pessoas da nação para as pessoas da nação. Novamente irônico vindo de uma nação que iria atacar os comunistas tão ferozmente que centenas de milhares de cidadãos dos USA morreriam em testes, experimentos, operações secretas e suspeitas, tudo direcionado a uma ameaça comunista que nem mesmo se importava.

Todo esse prelúdio era para entender o que quero dizer aqui, sobre essa nossa nova onde de 'soberania' e como ela é um artifício que se prende ao conceito de 'salvador da pátria' que engana as pessoas.

Estamos hoje em um governo que se diz 'esquerda', criticando uma oposição que se diz 'direita'. Estudando o que essa abstração ignorante significa, podemos chegar a conclusão que isso não tem o menor fundamento, e muito menos uma relação com o que temos no Brasil, se tivesse.

E o pior, esses rótulos são usados para perpetuar a noção do 'salvador da pátria' renovando sua forma a cada 5 anos.

Pense nisso:

Uma franquia Brasileira, como o Boticário, 35 bilhões em vendas em 2024, mesmo utilizando-se de insumos importados e facilidades internacionais de gestão, segue sendo uma empresa que na maior parte circula sua riqueza e sua economia no Brasil.

Uma franquia dos USA, como o McDonalds. Não importa que venda três, quatro ou vinte vezes mais que o Boticário, grande parte de sua riqueza é paga diretamente a uma empresa nos USA, que contribui com o governo dos USA e com as pessoas dos USA. 

Tratar as duas com mínima diferenciação, apenas dando algumas vantagens à Brasileira, não é conservador, nem liberal, é simplesmente atender a interesses privados pessoais que nada tem a ver com manutenção dos serviços que o governo tem que prestar ao cidadão brasileiro. O que chamamos de política de Estado. 

Essa é a primeira lição de entender a soberania: Por mais que existam teorias retóricas, ou mesmo corretas, existem atos, principalmente na economia, que não são para a adesão a um sistema "preferido", mas coisas que devem ser feitas por qualquer governo, por serem a melhor prática para a resiliência e soberania, independentes de governantes, que chamamos políticas de Estado.

Quando um governo, seja esse, o anterior, ou qualquer outro, falha com as políticas de Estado, por ação ou omissão, ele não está sendo "direita" ou "esquerda", ele está sendo um governo inepto. E isso, todos eles tem feito desde há muito tempo.